Setembro verde e a Prevenção de Câncer colorretal

O câncer colorretal (CC) interessa para várias áreas do saber, dentre estas: a medicina, a nutrição, a estomaterapia e a psicologia.

Em função do setembro verde, quero salientar esse tema nessa matéria. Já tenho uma vivência de 19 anos assistindo pessoas que sofreram CC e que necessitaram derivar seu instestino para o abdomem. Vejo seus sofrimentos, dores e angústicas, mas também a luta pela vida. Constato que a maioria de meus clientes tem sido capaz de superar as dificuldades impostas pela doença, buscando um novo sentido à experiência.

Quão  frequente é esse câncer?

Olhei aguns estudos científicos para pontuar a sua incidência. Em cada país pode ser diferente, estando os casos em crescimento ou até redução. Apenas para exemplicar, no Japão o CC é o mais incidente dos cânceres – 6,654 casos, com 16,0% 1;  na China, ocupa o quarto lugar (28,64%), dentre dos dez principais 2;  na Austrália  está havendo aumento da incidência em faixas estárias mais jovens3, o que mostra uma preocupação na saúde pública. Já no Brasil, numa avaliação de casos entre 1980-2013, constatou-se que o CC tem tido aumento das taxas de sua mortalidade nas últimas três dácadas4. Isso é bem preocupante, não é?

O que causa o câncer colorretal?

É difícil saber, porque câncer em si pode ter diferentes causas. E o CC certamente não é diferente. Mas encontro um estudo nacional que aponta uma relação com o estilo de alimentação, estando  aumentado naqueles que consomem mais carne e menos de vegetais, frutas e grãos integrais5. Então, é bom pensar que o que comemos pode fazer toda diferença em nossa saúde. “Que nossa alimentação seja nosso próprio remédio”.

A inserção da estomaterapia nessa área

O câncer colorretal é a maior causa de realização de estomias intestinais. Quando não há mais a possibilidade de refazer a comunicação do intestino (a anastomose), os cirurgiões necessitam abrir uma boca no abdomem (estomias) para poder ser eliminado o conteúdo fecal e, assim, permitir que  vida continue.

Não se pode jamais esquecer que as estomias são a essência de um Estomaterapeuta (ET), porque foram destas que a especialidade se originou há mais de 50 anos. A pessoa estomizada, seja definitiva ou temporariamente, necessitará dos bons cuidados e orientações de um ET  para aprender a lidar com seu novo corpo. Isso inclui a manipulação da estomia, os cuidados com a pele, familiarização com os equipamentos coletores, reforço na orientações sobre a nutrição, a vida social e íntima, acolhimento emocional,  entre outros. Um ET, usando seu saber em educação em saúde e sua sensibilidade e empatia, ajuda a pessoa com estomia a assumir  seu autocuidado, a fim de alcançar a melhor reabilitação possível. Assumir o autocuidado é imperativo para devolver a autonomia e o controle de  próprio corpo.

A atividade de um ET já deve ser iniciada antes mesmo da cirurgia, orientando, tirando as dúvidas do paciente e realizando a demarcação do estoma, para que o cirurgião possa implantar no melhor lugar possível. Isso será fundamental para a segurança posterior do paciente, além de mais economia de recursos financeiros, sendo um direito daquele e um dever do médico e do ET. Lamentavelmente, essa prática tem sido muito negligenciada em nosso país. Eu nunca recebi um cliente que tenha me referido ter sido demarcado no pré-operatório. Há 19 anos eu faço a mesma pergunta, e a resposta tem sido a mesma: Não sabe. E claro que o paciente lembraria porque esse é um procedimento no qual o paciente participa ativamente.

Enfim, um ET será  sempre um grande aliado de um paciente estomizado e com ele permanecerá  em toda a sua trajetória, tendo mais ou menos necessidade de cuidados. Se você está lendo essa matéria e não conheceu um ET ainda, não hesite em econtrá-lo. Talvez você esteja fazendo rituais com seu estoma que não são as melhores práticas de cuidados. Há vários pelo Brasil. Também não deixe de procurar uma associação de estomizados e encontrar pessoas que possam enriquecer sua experiência.

Um olhar ao psiquismo

Embora a estomia seja o que possibilite manter a vida, não há dúvidas que a pessoa sofre alteração na sua imagem corporal, pois a anatomia e função estão modificadas e, portanto, precisará ressignificar esse corpo e integrar  essa experiência no seu psique-soma. Dessa ressignifação dependerá a melhor adpatação  da pessoa à nova condição corporal, especialmente se definitiva.

Verifica-se que quanto mais jovem a pessoa e maior  peso do corpo, mais alteração na imagem corporal pode ser encontrada, sendo os homens os mais afetados. Na primeira condição, isso se dá pelo fato das pessoas mais jovens terem mais preocupação com sua aparência e estarem mais ativas na vida social e sexual. Já quanto a obesidade, a dificuldade está em ajustar as vestimentas6. Nessa questão da obesidade, destaca-se outra  dificuldade que as Estomaterapeutas têm para adequar os equipamentos coletores, e também o fato dessas pessoas correrem sempre riscos das suas bases se solteram da pele e haver estravazamento do conteúdo fecal, causando-lhes enorme, constrangimento, pricipalmente se ocorrer em ambientes públicos. Para isso se faz necessária a demarcação do sítio do estoma, conforme referido acima. Mas, por vezes, os pacientes e seus familiares estão emocionalmente tão invadidos pela notícia do câncer, que as demais questões ficam secundárias. Considero que cabe aos profissionais o cuidar de cada detalhe do presente, a fim de diminuir os problemas adiante.

A depressão e a ansiedade podem se fazer presentes nesses pacientes6, necessitando atenção psicológica e por vezes psicoterapia. Diante disso,  é importante que os profissionais mais próximos dessas pessoas, como médicos e enfermeiros, percebam as necessidades emocionais dos pacientes e os referendem para os psicológos ou psicanalistas. O melhor é que isso fosse feito já no pré-operatório. Todavia, há sempre um dose de preconceito da população em geral de realizar terapia individual ou mesmo em grupo. Assim sendo,  por vezes grupos de acolhimento podem ser úteis e bem mais aceitos. Indubitavelmente, que se um profissional da área psi estivesse mais próximo dos seres humanos quando nessa ou em outras necessidades da vida, o enfrentamento dos problemas poderiam ser mais facilmente resolvidos ou minimizados. Os pacientes poderiam se tornar mais empoderados para o enfrentamento das vicissitudes.

 

O Setembro verde

Diante no exposto, considero que essas são boas razões para mais divulgação nas mídias a respeito do câncer colorretal. Assim, viva o setembro verde. Pode ser verde de verdura, vegetais, mas, também, verde de esperança em mudança no estilo de vida da população e com ela vislumbrar-se a redução da ocorrência de uma doença que tem potencial para ser  prevenido.

Invista na sua saúde. Alimente-se bem e evacue bem também, pois a alimentação rica em fibras, a ingestão de líquidos, compatível ao peso corporal, e a evacuação das fezes, em posição correta, poderão ser aliadas na prevenção desse câncer. Desse modo, uma estomia pode ser evitada e a imagem de seu corpo ser mantida do modo como veio ao mundo, com cada órgão no seu lugar. Mas, se você já tem uma estomia devido ao CC ou por outra razão, aceite a vida recebida e viva-a em toda sua plenitude, ressignificando sua existência num corpo com uma modificação que não incapacita o viver.

Colabore com a campanha. Compartilhe!

Dra Beatriz Farias Alves Yamada – PhD, Ms
Estomaterapeuta – COREN-SP 49.517
Psicóloga clínica – CRP 06/126735

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Referências citadas

1.Nakagawa-Senda H, Yamaguchi M, Matsuda T, Koide K, Kondo Y, Tanaka H, Ito H. Cancer Prevalence in Aichi, Japan for 2012: Estimates Based on Incidence and Survival Data from Population-Based Cancer Registries. Asian Pac J Cancer Prev. 2017 Aug 27;18(8):2151-2156.
2. Zheng R, Zeng H, Zhang S, Chen W. Estimates of cancer incidence and mortality in China, 2013. Chin J Cancer. 2017 Aug 17;36(1):66.
3. Troeung L, Sodhi-Berry N , Martini A, Malacova E, Ee H, O’Leary P, Lansdorp-Vogelaar I, Preen DB. Increasing Incidence of Colorectal Cancer in Adolescents and Young Adults Aged 15-39 Years in Western Australia 1982-2007: Examination of Colonoscopy History. Front Public Health. 2017 Jul 24;5:179. doi: 10.3389/fpubh.2017.00179. eCollection 2017.
4. Oliveira RC, Rêgo MA. MORTALITY RISK OF COLORECTAL CANCER IN BRAZIL FROM 1980 TO 2013. Arq Gastroenterol. 2016 Apr-Jun;53(2):76-83.
5. Angelo SN, Lourenço GJ, Magro DO, Nascimento H, Oliveira RA, Leal RF, Ayrizono Mde L, Fagundes JJ, Coy CS, Lima CS. Dietary risk factors for colorectal cancer in Brazil: a case control study. Nutr J. 2016 Feb 27;15:20.
6. Jayarajah U, Samarasekera DN. Psychological Adaptation to Alteration of Body Image among Stoma Patients: A Descriptive Study. Indian J Psychol Med. 2017 Jan-Feb;39(1):63-68.

Fonte da foto destacada: google imagens

2 respostas
  1. Ana Cristina da Silva Rocha
    Ana Cristina da Silva Rocha diz:

    Não poderia estar mais claro.
    As pontuações quanto a incidência do CC em alguns paises aponta para o leitor fazer de maneira leve sem alarmar.

    O mesmo ocorre no que se refere às causas do CC. Sabesse que a colocação das  palavras em artigos e matérias podem causar no indivíduo  desespero. 
    Para ter uma ideia, algumas matérias que são vinculadas no programa de televisão ligado à saúde,  faz com que Hospitais e postos de saúde,  tenham super demanda de pessoas.

    Sempre é bom lembrar, “Não se pode jamais esquecer que as estomias são a essência de um Estomaterapeuta (ET), porque foram destas que a especialidade se originou há mais de 50 .

    Cheguei a conhecer mulheres ostomizadas que permitiam somente as ET ver seu corpo nesta fase de ostomizadas,  tamanho a confiança que é depositada no profissional.

    Desta maneira é o que diz a matéria .

    Um ET, usando seu saber em educação em saúde, ajuda a pessoa com estomia a realizar seu autocuidado, a fim de alcançar a melhor reabilitação possível.

    Apresenta um profissional e sua importância em todo conjunto multidisciplinar em atendimento aos ostomizados. Isso inclui o psicólogo, psiquiatra.

    O grupo de Apoio de pessoas com estomias  que tenha o psicólogo, como intermediador,  acho que pode ser ponto interessante. Devido a resistência do ostomizados aceitar o tratamento individual do psicólogo, o grupo de apoio e uma maneira do profissional visualizar pontos a serem trabalhamos.

    Acredito que cada vez mais e preciso olhar de forma diferente da que é disseminada pela sociedade do CC ser uma doença mortal, muitas são as drogas que hoje e cada dia mais surgem para o tratamento e com isso vem contribuindo para que pacientes tenham uma sobrevida e qualidade de vida. Alguns chegando a cura, como o caso de minha amiga linda e maravilhosa Eliane Santos, que hoje trabalha, faz atividade física e fotografa.

    Parabéns pela matéria!
    Do mais está uma leitura agradável,  inteligível.

    Responder
    • Beatriz Yamada
      Beatriz Yamada diz:

      Ana,
      Obrigada pelos seus comentários. Tentei escrever uma matéria esclarecedora, sem causar pânico. Precisamos falar sobre o assunto se desejamos prevenir doenças. O câncer se detectado precoceemente tem toda chahce do mundo de cura, pois de fato tem tratamento médico cirúrgico e clínico, como voc6e mesma pontuou. Mas, desejamos mesmo promover a saúde. Por isso, o comer bem para ter intestinos limpos e ter uma causa a menos, que é a obstipação.
      Viva sua linda amiga Eliana.
      abs a você e seu grupo de mulheres de fibra.

      Responder

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